Gravidez transforma profundamente o cérebro e desafia mito do “mommy brain”, mostra neurociência
Em novo livro, a neurocientista Susana Carmona reúne pesquisas sobre mudanças hormonais, plasticidade cerebral, vínculo materno e a transformação biológica conhecida como matrescência.

Em resumo
A neurocientista Susana Carmona mostra em A Mother’s Brain como gravidez e maternidade remodelam o cérebro adulto. Pesquisas apontam alterações hormonais e estruturais relacionadas ao vínculo, adaptação e comportamento social. O livro também questiona o estereótipo do “mommy brain” e apresenta a matrescência como uma transformação biológica profunda.
Gravidez pode transformar o cérebro mais profundamente do que se imaginava
A gravidez não modifica apenas o corpo.
Pesquisas de neuroimagem mostram que ela também provoca mudanças profundas e mensuráveis no cérebro, algumas das quais podem permanecer por anos depois do nascimento do bebê.
Esse processo é o tema central de A Mother’s Brain: The New Science of the Neuro-Maternal Revolution, novo livro da neurocientista Susana Carmona, publicado pela MIT Press em outubro de 2026.
O que acontece com o cérebro durante a gravidez?
A gestação envolve alterações intensas nos sistemas hormonal, imunológico e nervoso.
Essas mudanças influenciam a organização e o funcionamento de diferentes circuitos cerebrais.
Cérebro adulto continua altamente plástico
Durante muito tempo, grandes mudanças estruturais foram associadas principalmente à infância e à adolescência.
Estudos sobre maternidade mostram que o cérebro adulto também pode passar por reorganizações importantes.
Carmona descreve a gravidez como um dos períodos de maior neuroplasticidade da vida adulta.
O que é matrescência?
O termo matrescência descreve a transformação física, psicológica, hormonal e social associada à passagem para a maternidade.
A palavra faz uma comparação com a adolescência, outra fase marcada por profundas alterações no organismo e na identidade.
Transformação começa antes do nascimento
As mudanças não acontecem apenas depois que o bebê nasce.
Durante a própria gestação, hormônios já começam a remodelar sistemas relacionados a:
- atenção;
- interação social;
- percepção de ameaças;
- vínculo;
- regulação emocional.
Cérebro pode se adaptar às novas demandas
Essas alterações são estudadas como possíveis mecanismos adaptativos que ajudam a pessoa a responder às necessidades de um recém-nascido.
Mudança não significa perda de capacidade
Uma redução ou alteração em determinada região cerebral não deve ser automaticamente interpretada como deterioração.
Em neurociência, reorganização pode significar especialização e otimização de circuitos.
O que é o chamado “mommy brain”?
A expressão é utilizada popularmente para descrever esquecimento, distração e dificuldade de concentração relatados por algumas mães.
O problema é quando essas experiências são interpretadas como evidência de perda permanente de inteligência.
Neurociência apresenta cenário mais complexo
Fatores como:
- privação de sono;
- estresse;
- mudanças hormonais;
- aumento da carga mental;
- divisão constante da atenção
podem afetar memória e concentração no cotidiano.
Isso é diferente de afirmar que a maternidade provoca um declínio geral da capacidade cerebral.
Gravidez modifica hormônios em escala extraordinária
A gestação expõe o organismo a mudanças hormonais muito intensas.
Estrogênio, progesterona e outros hormônios variam drasticamente ao longo dos nove meses.
Essas moléculas também atuam no cérebro e podem influenciar plasticidade e comportamento.
Hormônios participam do vínculo materno
Pesquisas investigam como essas alterações podem preparar circuitos relacionados à percepção social e à resposta aos sinais do bebê.
O objetivo não é sugerir que exista um único “cérebro materno”, mas compreender tendências biológicas observadas em grupos de participantes.
Mudanças podem persistir após o parto
Uma das questões centrais estudadas por Carmona é quanto tempo essas transformações permanecem.
Seu laboratório acompanha mulheres desde antes da gestação até anos após o parto.
Essa abordagem longitudinal permite observar quais mudanças são temporárias e quais podem se tornar características duradouras do cérebro.
Ciência da maternidade foi historicamente negligenciada
Apesar de bilhões de pessoas passarem pela gravidez ao longo das gerações, o cérebro materno permaneceu relativamente pouco estudado durante décadas.
A situação acompanha uma lacuna mais ampla na pesquisa sobre saúde das mulheres.
Novos estudos tentam corrigir essa diferença
Tecnologias de neuroimagem e grandes estudos longitudinais estão permitindo acompanhar as transformações com maior precisão.
Pesquisar mães também ajuda a entender o cérebro humano
A maternidade funciona como um modelo natural para estudar como hormônios, ambiente, comportamento e experiência podem remodelar o cérebro adulto.
A Mother’s Brain propõe nova visão sobre maternidade
Publicado em 6 de outubro de 2026, o livro reúne pesquisas de Carmona e de outros grupos internacionais sobre neurociência materna.
A obra procura substituir estereótipos sobre perda cognitiva por uma visão mais ampla: a maternidade pode envolver reorganização cerebral, adaptação e plasticidade, além das dificuldades reais provocadas por sono, estresse e sobrecarga.
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